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Quase Serrano: Um Serráqueo!

Ronald Golias, Dalekão e Henrique Vieira Filho – Serra Negra/SP

“_ Ô Cride, fala pra mãe!”… que um serráqueo aterrissou em Serra Negra!

Esta cidade sempre esteve em meu coração: minhas poucas boas lembranças da infância, assim como o primeiro beijo, a primeira (digamos assim…) lua de mel, as primeiras férias após décadas de trabalho… A isso se soma a ancestralidade, desde bisavôs, todos da região.

Ainda que nem seja fã de viajar, por conta de minhas atividades como palestrante e artista visual, nos últimos anos, virei cidadão do mundo e, até pouco tempo, pensava em residir na Europa, em busca de tranquilidade e segurança que não mais encontrei em São Paulo.

Eis que em dezembro do ano passado, antes da pandemia, em família, cogitando um meio-termo, decidimos experienciar um mês morando em Serra Negra e… aterrizamos de vez!

Nos apaixonamos pela vista, apreciamos nascer e pôr do sol, as fontes, o café (em grão, moído na hora… hum…), o ar puro, as verduras de pequenos produtores, o sossego…

De São Paulo, sentia falta do “delivery”: se precisasse de um clip para papel, bastaria algumas digitações em aplicativo de celular e logo chegava. Na cidade serrana, mal entregavam pizza… Pena que foi preciso de um vírus para despertar os comerciantes sobre este filão de oportunidades.

Caso sentisse saudades do trânsito (impossível!), bastaria ir passear na rua principal, quando os turistas estão presentes.

O atendimento de nossos restaurantes, me lembra muito os de Paris: desatentos, lentos… Em compensação, o TAMANHO das porções aqui é bem generoso, ao contrário do que temos na França!

Em Londres, eu estranhava a “mão invertida” do trânsito… e não é que em Serra Negra metade dos motoristas dirige do lado esquerdo da pista! Devo crer que muitos moradores são ingleses recém chegados! 

Em Roma, fotografei muitas “fontanas”, pois as esculturas que as adornam são simplesmente divinas! Em compensação, impensável beber daquelas águas poluídas! Já em nossa cidade, bebo das águas sem medo e sem moderação! Mas, bem que podemos embelezar mais as estruturas à volta de cada: daria uma ótima excursão para turistas.

Em Milão, passeei na Galleria Vittorio Emanuele II, templo do consumo… Mas, sinceramente… prefiro o nosso “shopping a céu aberto” serrano, pois, se procurarmos bem, encontramos ainda alguns produtos exclusivos, de pequenos artesãos da região e estimular a micro-economia é mais saudável e justo do que comprar na Prada…

Já em Viena, minhas pinturas costumam ficar em uma galeria pertinho da Cafeteria Landtmann, outrora frequentada por Freud, Hitler, Stalin, Trotsky e Tito (sobre este tema, leiam meu artigo: “_Dr. Freud já irá lhe atender. Pode deixar que tomo conta de seu estojo de pintura, Sr. Hitler”. Bom, por aqui, posso pesquisar onde o “Seo Pedro Húngarez” (também conhecido como Josef Mengele…) tomava seu cafezinho e expor algumas de minhas telas com o tema “Paz” e, na ausência de mais carrascos, podem se contentar comigo (ao menos meus alunos assim me consideram…) e, se não temos um Freud, agora os serranos podem contar com um “Jung Tupiniquim”: eu (de novo…).

Brincadeiras à parte, estou feliz em Serra Negra! Sinto falta tão somente de mais atividades culturais e sociais. Por sinal, com as recentes amizades que iniciei na cidade, notei uma enorme demanda reprimida neste tópico e muita gente com boa vontade de mudar isso, o que será bom para todos, sejam serranos ou turistas!

Estou com uma “coceira” de arregaçar as mangas pelas Artes na cidade, mas, por enquanto, eu sou somente um Serráqueo… Assim que conhecer bem melhor nosso povo e todo o Circuito das Águas, aí, sim, farei justiça a me chamar de Serrano e retribuir tudo de bom que aqui encontrei!

Henrique Vieira Filho, um Serráqueo ao seu dispor!

Artigo publicado originalmente na Revista Meridiano de Sentidos

Henrique Vieira Filho é artista plástico, escritor, jornalista e psicanalista.

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