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Henrique Vieira Filho e sua reportagem no Jornal O Serrano

Artigo publicado originalmente no Jornal O Serrano, em 05 de novembro de 2021 – 6279 – CXIII

DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.5759563

Henrique Vieira Filho entrevista três grandes bailarinas originadas do interior do Estado de São Paulo, abordando suas carreiras e a importância da volta dos Festivais de Dança em Serra Negra / SP.

Fotógrafo: Henrique Vieira Filho – Dayana Rezende

No imaginário popular, em especial, o balé, é algo que só ocorre em grandes centros urbanos e de forma elitizada.

Contudo, ao passear por Serra Negra, podemos constatar várias escolas e academias voltadas a esta arte. 

Eu mesmo já me deparei, em diversas ocasiões, com grupos de dança se apresentando pelas ruas da cidade e até em supermercados! 

E lembro, ainda, dos Festivais de Dança, que ocorreram de 1992 a 2005 e, simplesmente, desapareceram!

Para entender um pouco mais da história da dança em nossa região e o que podemos fazer para melhorar ainda mais, entrevistei três grandes dançarinas de nossa cidade (em ordem alfabética): Ale Brandini, atualmente no “The Masked Singer BR”, exibido pela Rede Globo, Daiani Fiorire, do Estúdio Fiorire e Dayana Rezende, da Cia de Dança Allegro, da Escola Talento.

Compartilho com os leitores a agradável conversa, a qual encerrarei com uma “provocação” cultural!


Henrique: Nossa região é exceção ou a dança está bem mais disseminada pelo Brasil, do que podemos supor?

Ale Brandini: A dança hoje em dia não está mais tão elitizada como antigamente, onde as crianças eram inseridas na dança somente através do ballet clássico! 

Hoje, elas também podem ser inseridas em outros diferentes contextos e estilos, como as danças urbanas por exemplo, o que está sendo ótimo para essa propagação em pequenas e grandes cidades do Brasil.

Daiani Fiorire: A nossa região não é uma exceção, a dança está bem mais disseminada pelo Brasil, certamente.

Acredito que Serra Negra poderia dar mais visibilidade, para mais artistas. Sempre são os mesmos artistas, fazendo as mesmas coisas pela cidade durante anos. Ultimamente, esse cenário tem mudado um pouco, mas ainda assim segue sendo praticamente o mesmo.

Dayana Rezende: Em nossa região, um marco foi o Adágio Instituto de Dança, da professora Mariângela Maganha, que ensinou por cerca de 35 anos e a dança contou grande incentivo municipal, em especial, no período em que a cidade esteve sob a gestão do prefeito Bimbo, a quem sou muito agradecida.


Henrique: Você, sendo uma serrana, uma pessoa do interior, o que lhe levou ao balé, à dança?

Ale Brandini: Fui incentivada pelos meus pais desde pequena que me colocaram nas aulas de ballet ainda no ensino infantil dentro da escola onde eu estudava! A partir daí nunca mais parei, e com o passar dos anos  fui procurando um ensino adequado dentro do que eu queria para a minha dança.

Daiani Fiorire: Mais do que ser serrana ou uma pessoa do interior, a dança foi um caminho que escolhi para minha vida. Iniciei na ginástica artística, em um projeto social na cidade e depois minha mãe, Clarice, me apresentou o balé clássico. Me apaixonei e depois nunca mais parei de me especializar na dança.

Dayana Rezende: É como se já nascesse com essa “sementinha” da dança,  desde criança, dançava pela casa, falava de balé e queria ser bailarina. E teve uma amiguinha que fazia balé no Rio de Janeiro e me contou sobre as aulas, mostrou os passos e aquilo despertou ainda mais a vontade. Na mesma época, o colégio Reino trouxe uma professora de balé que deu aula para nós durante um ano e, logo a seguir, comecei as aulas no Adágio Instituto de Dança.


Henrique: Todo artista sonha em ter o justo retorno financeiro exercendo o que ama. Como você atingiu a profissionalização? É necessário migrar para os grandes centros urbanos? É possível viver bem de sua arte, trabalhando em Serra Negra e região?

Ale Brandini: Me formei em Dança pelo curso técnico do Conservatório Musical de Amparo e sempre fiz muitas aulas, workshops e cursos de férias fora da cidade, principalmente depois de formada. Sempre me coloquei em muitos estilos diferentes de dança pois penso que hoje em dia, para trabalhar e ter sucesso você precisa entender e ter todas as danças em você e não ser apenas muito boa em um único estilo. No meu caso fiquei em Serra Negra por anos ministrando aulas, mesmo já fazendo grandes trabalhos profissionais fora. Mas teve um momento que senti sim a necessidade de migrar, pois eu queria estar completamente inserida no que eu queria desenvolver para o meu futuro, que não era apenas ministrar aulas e coreografar festivais. Mas acho que cada um tem a sua verdade dentro da sua dança e o seu propósito de vida. Então também acho que da pra viver da dança no interior sim, porém visando  um ensino bom e verdadeiro aos alunos, dentro de academias e projetos sociais.

Daiani Fiorire: Eu busquei a profissionalização fora de Serra Negra, posso dizer que aqui foi uma base e depois migrei para vários locais e estados.

Viver da arte aqui em Serra Negra já foi mais complicado. No momento que você começa a se valorizar, as perspectivas mudam e o modo como as pessoas te veem também. Há anos foi disseminado uma tendência aqui na cidade de que os artistas trabalham de graça. Eu, junto a Fiorire, alunos, pais e responsáveis, não trabalhamos dessa forma. Amamos a dança, fazer arte, mas assim como todo trabalho, ele deve ser valorizado e honrado como deve ser.

Dayana Rezende: Hoje em dia, tem até faculdades online, ou bem perto, em Amparo, mas na minha época tinha que estudar longe e assim fiz a minha graduação em educação física e pós-graduação em dança, em São Paulo. As escolas de referência e os exames de graduação continuam nos grandes centros urbanos. 

É possível, sim, viver da nossa profissão aqui na cidade! Sempre estou incentivando as minhas alunas. Com 14, 15 anos eu já era assistente de baby class  e logo comecei a dar aula e é assim, também, com as minhas alunas desta idade, já atuando como assistentes e me ajudando eu ensinando e levando para cursos de especialização para trabalhar com o balé infantil e assim vai começando, vai nascendo uma carreira.


Henrique: Para quem quer começar na dança, seja como lazer, seja por eventual interesse como profissão, quais dicas você daria?

Ale Brandini: Dedicação e amor! Pois assim, tanto por lazer, realização pessoal ou interesse profissional você encontrará a verdadeira excelência da dança dentro de você, e isso se torna alegre e prazeroso. Cada pessoa tem um limite físico e emocional e hoje em dia, não vemos mais um ensino tão duro quanto antigamente! A dança é para quem  quiser usufruir de seus benefícios, seja com qualquer corpo, idade, gênero ou classe social. E dentro do nível que cada pessoa escolher para ela, mas a dedicação fará toda a diferença, e se ela ou ele tiver esse dom de expressar a sua verdade através da dança por prazer e realização, a dedicação não se torna uma obrigação e sim um estilo de vida que estará presente para sempre!

Daiani Fiorire: Quando falamos em aprender algo, para mim, a disciplina, amor, e a constância são as melhores formas de se chegar ao êxito e claro, acreditar em você.

Dayana Rezende: Em primeiro lugar, se dedicar muito às suas aulas, estudar em uma escola de balé que tenha os exames de graduação, pois são muito importantes para quem deseja seguir carreira.


Henrique: A imagem de uma atividade elitista, em parte, se deve ao fato de ter que investir em aulas, acessórios, dedicação, implicando em custo financeiro e de tempo, recursos estes escassos para famílias de baixa renda. É possível, para pessoas de baixa renda, ingressar no universo da dança? De que forma?

Ale Brandini: Acredito que hoje em dia os pequenos e grandes municípios ofereçam muito mais projetos que visam inserir as crianças carentes e de baixa renda em atividades culturais e esportivas. Como disse anteriormente, as crianças podem e devem ser inseridas na dança através de outros tipos que não sejam apenas o clássico, que já tem historicamente muitas regras e bloqueios. Isso também facilita a inserção de todos os gêneros na dança e não somente de meninas!

Daiani Fiorire: É possível, a dança, não somente o Ballet Clássico já vem rompendo com essa estrutura elitizada. Inclusive, a Fiorire desenvolve projetos sociais através da prefeitura de Serra Negra, onde crianças de baixa renda tem acesso às aulas gratuitas. E em muitas escolas do Brasil, há possibilidade do aluno ingressar com bolsas parcial ou integral.

Dayana Rezende: Para quem não tem condição de pagar uma escola particular, nossa cidade tem muitos projetos gratuitos, através da prefeitura, tanto para crianças, quanto para jovens, como para adultos. E não só com aulas de balé clássico, como também de danças urbanas e outros estilos.

A  Cia de Dança Allegro da Escola Talento já forneceu bolsas a alunos que começaram com as aulas no CRAS – Centro de Referência de Assistência Social e demonstraram empenho e interesse em se aperfeiçoar.


Henrique: Recentemente, ocorreu o 38º Festival de Dança de Joinville.

Serra Negra já realizou mais de dez festivais de dança, de 1992 a 2005. Como eram estes eventos? Por que foram interrompidos?

Ale Brandini: Participei de alguns  Festivais da Primavera em Serra Negra. Que me lembre, eram Mostras de Dança e não competições, como em Joinville. Sinceramente, não me lembro se os grupos se inscreviam gratuitamente ou não. O festival cresceu ao ponto de não conseguir ser feito nas instalações do SNEC – Serra Negra Esporte Clube e migrou para o Centro de Convenções. Acredito que deve ter sido interrompido por não ter conseguido se sustentar pelo formato de Mostra, não ter taxas, se tornando inviável. Mas, deixo claro que são vagas lembranças, nessa época me apresentava apenas como bailarina intérprete dentro do Grupo do Conservatório.

Daiani Fiorire: Quando criança me lembro que haviam mais apresentações. Os festivais de dança no clube eram muito comuns, mas também somente uma parte da população tinha acesso devido ao valor dos ingressos. Acredito que foram interrompidos devido à recursos financeiros e pelo Covid.

Dayana Rezende: Quando comecei a dançar, ainda criança, havia o Festival da Primavera, com a apresentação de grupos do Circuito Das Águas e de outras regiões de São Paulo. 

No início, eram eventos competitivos, depois, viraram Mostras de Dança. Aconteciam no SNEC – Serra Negra Esporte Clube, sendo as últimas edições já no Centro de Convenções, tendo sido assumidos pela Prefeitura.

Ninguém sabe ao certo por que foram interrompidos! 


Henrique: O que pode ser feito para que Serra Negra se transforme em uma nova Capital Da Dança?

Ale Brandini: Pessoas locais ligadas à arte interessadas em encabeçar um novo projeto inteligente e sustentável que utilize os espaços físicos oferecidos pela cidade.

Daiani Fiorire: Acredito que seja um pouco difícil isso acontecer, mas não é impossível. Porém, antes de pensarmos em uma escala maior, se os órgãos públicos da cidade valorizassem mais o nosso trabalho e dessem oportunidades para outros artistas trabalharem na cidade, isso já seria um bom começo.

Dayana Rezende: Serra Negra, por todo esse crescimento em relação à dança, já está se tornando uma referência aqui dentro do Circuito das Águas, além de ser a única cidade da região que tem um teatro que comportaria a volta dos festivais! 

Os próprios profissionais de dança da região, que já participam de festivais, como este recente, em Joinville, podem ajudar na elaboração deste projeto e na captação de jurados “de peso”, organizar por estilos de dança…

Nosso teatro só precisa de manutenção e terminar os camarins e a rede hoteleira é ampla o suficiente para receber os bailarinos, seus familiares e todo o público aficcionado.

Temos estrutura para receber um grandioso festival e seria muito bom para a cidade, tanto na área da cultura, quanto do turismo! Seria, assim, um passo gigantesco!


Henrique:  Agradeço a vocês pela participação e parabenizo pela dedicação às Artes, ainda mais nestes períodos recentes de isolamento!

Mais do que fazer bem à nossa alma, as atividades culturais igualmente beneficiam e movimentam a economia, gerando novos postos de trabalho, atraindo milhares de turistas, lotando hotéis, restaurantes e o comércio.

Já contamos com os artistas e com a infra-estrutura, por isso, lanço o desafio: que voltem os Festivais!

Biografias (em ordem alfabética):

Foto divulgação – Ale Brandini

Ale Brandini é coreógrafa, professora e bailarina com formação em Dança pelo Conservatório Musical Integrado de Amparo.

Com  experiência e domínio em ballet, jazz, danças urbanas, dança de salão e ballroom dance. Ministra aulas a mais de 20 anos.

 Atuou como ensemble no Musical “Mamonas o musical”. Dançou com inúmeros nomes da música brasileira e coreografou shows e clipes musicais. Fez parte do quadro de profissionais do programa de dança “Dancing Brasil” da Record TV, desde a primeira temporada e atualmente é assistente de coreografia do programa.

Atualmente fez parte do elenco de bailarinos do programa “The Masked Singer BR” exibido pela Rede Globo.

Coreografa os musicais da nova novela do SBT (Poliana Moça)


Foto divulgação – Daiani Fiorire

Daiani Fiorire é bailarina profissional registrada pela Delegacia Regional do Trabalho (DRT) e graduada em Dança pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS). Professora-Artista e Pesquisadora em Dança, atua legalmente e profissionalmente na área da Dança há 9 anos.

“Desenvolvo a dança para além da atividade física, per se, mas como uma escolha em levar a vida mais leve e enérgica prezando a responsabilidade e o cuidado em manter a sua própria essência em movimento.”


Fotógrafo: Henrique Vieira Filho – Dayana Rezende

Dayana Rezende é bailarina profissional, formação:  Grade Advanced da Metodologia Royal Academy of Dance (Escola Lina Penteado/ Campinas), pela Metodologia Cubana pelo Pas de Cuba, Cuballet e Escola Paula Castro, Formação Metodologia Vaganova, pela Escola Bolshoi Joinville, em andamento.

Graduada em Educação Física pela Fesb, Pós-Graduada em Dança e Consciência Corporal pela Gama Filho (São Paulo). Bailarina Clássica e professora de Dança a 20 anos, já atuou em várias escolas e projetos sociais da cidade de Serra Negra e região, entre elas, Academia Ponto da Dança (Amparo), Adagio Instituto de Dança (Serra Negra e Águas de Lindóia), projeto e associação Fazendo Arte (Amparo). 

Professora do Projeto de Ballet Clássico do CRAS da Secretaria de Assistência Social de Serra Negra e professora de Dança do Grupo da Melhor Idade, há doze anos. 

Coreógrafa, fundadora e diretora da Cia de Dança Allegro da Escola Talento, na cidade de Serra Negra, já somam doze anos, representando a cidade em Festivais de Dança e Eventos pela região e outras localidades.

Re Arte 2020 – Evento que integra diversas Artes, incluindo, a dança
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