Destaques de Henrique Vieira Filho

A Embriaguês Divina, Baco, Alquimia e Psicanálise

A Embriaguês Divina, Baco, Alquimia e Psicanálise

O Vinho Nos Ritos de Fim de Ano

Vinho: A Água Da Vida

Toda festividade de passagem inclui aguardentes, do qual aqui destacamos o vinho, que é considerado a “água da vida”, o “sangue divino”, simbolismo este comum para quase todas as culturas conhecidas.

Bacchantes Alchemists - releitura do secular afresco da Casa dei Vettii, em Pompéia, onde próprio Artista Henrique Vieira Filho é retratado como Pentheus e sua mãe, em variadas idades, compõem as Bacantes a lhe desmembrar.
Bacchantes Alchemists – releitura do secular afresco da Casa dei Vettii, em Pompéia, onde próprio Artista Henrique Vieira Filho é retratado como Pentheus e sua mãe, em variadas idades, compõem as Bacantes a lhe desmembrar.

A Videira, vitis vinifera, é uma trepadeira de até 15 m com flores pequenas e verdes que nos dá a uva e o vinho, daí o vinifera (que produz vinho).

Seu nome é ligado à idéia de vida, sendo que o signo sumeriano para vida era uma folha de parreira.

Nas regiões da antiga Israel, a Videira era árvore sagrada e o vinho, a bebida dos deuses.

Isso se estendeu ao Antigo Testamento, onde aparece positivamente: “…um dos bens mais preciosos do homem… uma boa esposa é para o marido como uma videira fecunda… a sabedoria é como uma videira de belas parras…”.

Tanto é que, Noé, após o dilúvio, foi o primeiro a plantar a Videira.

Solutio: Solução Embriagante!

Aliás, dilúvio e embriaguez, conseqüência da ingestão demasiada do vinho, são símbolos da solutio:

Na Alquimia, é transformação do sólido em água, da matéria diferenciada para o seu estado original,

Na Psicanálise Junguiana é a dissolução dos aspectos fixos e estáticos da personalidade em uma nova forma regenerada.

Grupo teatral Cia Patoktak com a performance "O Corpo Que Ocupa", com Henrique Vieira Filho e a obra "Bacchantes Alchemists", em releitura mútua

Grupo teatral Cia Patoktak com a performance “O Corpo Que Ocupa”, com Henrique Vieira Filho no papel de Penteu, com sua obra “Bacchantes Alchemists”

O mito de Dioniso (Baco) é um forte indicador de solutio, deus dos mistérios da vida e da morte, do renascimento.

Seu sangue era o vinho, ora das alegrias profanas, ora da embriaguez mística, “… que transforma o que é terrestre e vegetativo em espírito livre de todos os laços…”.

Filho de Sêmele (Terra-Mãe) e de Zeus (deus do céu), Dioniso foi retirado do ventre de sua mãe fulminada e terminou a gestação na coxa de seu pai, vindo daí a sua força excepcional.

Senhor da libertação, da supressão das proibições e das catarses, representa uma submersão do consciente no magma do inconsciente, levando ao paroxismo (maior intensidade de uma atividade) aquilo de que se quer livrar a alma, revelando a pessoa a si mesma.

Dioniso/Baco e sua intervenção sobre Penteu, Rei de Tebas

Numa das histórias ligadas ao seu mito, disfarçou-se de sacerdote de seu próprio culto e foi levado à presença de Penteu, o soberano ditador de Tebas, que tentava acabar com as bacanais das mulheres.

Colocando uma “máscara” sobre a razão de Penteu, fez-lhe revelar o seu desejo de assistir às cerimônias.

Dioniso disfarçou o rei como mulher (o feminino é o caminho para o inconsciente…), conduziu-o e, fazendo dobrar um pinheiro, fez com que subisse e voltou a levantar a árvore, quando só então Penteu percebeu estar diante do próprio deus.

Tomado de pavor, viu a aproximação das mulheres, as quais derrubaram o pinheiro e fizeram o rei em pedaços. Sua cabeça foi arrancada por Agave, sua mãe, líder das demais mulheres.

Em nossa versão da história, o final é mais otimista do que o escrito por Eurípides, na célebre tragédia “As Bacantes”:

Após um silêncio total, os membros foram recompostos por Dioniso e o rei de Tebas teve, assim, o seu renascimento, a sua iniciação, sendo revelado a si mesmo.

A partir desse episódio, Penteu tornou-se um soberano digno e um verdadeiro líder.


Assista ao vídeo onde bacantes da Cia Patoktak
intervém sobre Henrique Vieira Filho, no papel de Penteu

Embriaguês: ora Divina, ora Mundana

Assim é a “embriaguês divina” nos rituais dionisíacos, que busca despertar o divino em si, bebendo o “sangue de deus”, rito habitual em inúmeras culturais, das quais destaco o Mitraísmo.

O deus Mitra, cultuado por muitos séculos nas regiões européias e adjacências, em cerca de 200 a.C., repartiu o pão, a carne e o vinho (ou sangue bovino, em algumas versões…), com seus doze discípulos, morreu para salvar seus seguidores e ressuscitou ao terceiro dia.

Seu principal templo situava-se onde hoje é o Vaticano, cujos sacerdotes católicos mantiveram a roupagem (até o chapéu dos bispos e papas, que continuam a se nominar mitra…) e o rito teofágico (devorar a deus…), a chamada “eucaristia”.

Assim, a hóstia simboliza a carne, enquanto o vinho é o sangue de Cristo, mantendo-se a tradição da religião que antes era a dominante,

Todos nós, em maior ou menor grau, temos tendências naturais a enrijecer a personalidade, adotando uma certa resistência à revisão de conceitos e de padrões de comportamento.

Caminhos para o Autoconhecimento

Para evoluirmos, um caminho que vale ser experienciado é a solutio, por meio de vivências psicoterápicas, de exercícios de imaginação ativa, conduzidos na Psicanálise Junguiana.

Outro catalisador do processo é a Terapia Floral de Bach, em especial, a essência Vine (extraída das flores da videira…), que funciona como o vinho da embriaguez divina, dos rituais dionisíacos, quanto também despertar o divino em si, bebendo o sangue de deus.

Sempre é bom pontuar que a evolução pessoal só ocorre com a participação ativa de nosso consciente, de nosso Ego, caso contrário, a “embriaguês” não teria nada de “divina”.

Simplesmente “dissolver-se” no Insconsciente, sem um propósito voltado ao Autoconhecimento, pode involuir para uma fuga de si mesmo, o que, infelizmente, é o que mais ocorre quando induzido por drogas, sejam lícitas ou ilícitas.

A verdadeira solutio é uma ação consciente na qual expandimos as fronteiras de nosso Conhecimento.

Assim sendo, nos rituais dionisíacos deste final de ano, solutione com moderação!

Jô Soares entrevista Henrique Vieira Filho sobre a origem das festividades de fim de ano
Jô Soares entrevista Henrique Vieira Filho sobre os mitos
e a origem das festividades de fim de ano

Henrique Vieira Filho com as versões em inglês de seus livros sobre Terapia Floral no Bach Centre
Henrique Vieira Filho com as versões em inglês de seus livros sobre Terapia Floral e Psicoterapia, no Bach Centre, próximo a Londres, Inglaterra

Henrique Vieira Filho é artista plástico, escritor, jornalista e terapeuta holístico. Nas artes, é autodidata e seu estilo poderia ser classificado como surrealismo figurativo.

Por mais de 25 anos, esteve à frente da organização da Terapia Holística no Brasil, sendo presença constante nos meios de comunicação. Elaborou as normas técnicas e éticas da profissão, além de ser autor de dezenas de livros e centenas de artigos, que são adotados como referência em vários países.

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