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Erro Profissional

Os noticiários, que antes focavam nos erros médicos, agora igualmente reportam erros de terapeutas das mais variadas vertentes.

Não se trata de nenhuma “conspiração”; infelizmente, são casos reais de abusos na relação terapêutica.

Inúmeros casos de terapeutas tântricos, psicoterapeutas, terapeutas em dependência química, yogaterapeutas, passando por coachings e meditadores, têm povoado negativamente as reportagens, como sendo autores de abusos sexuais, físicos e emocionais.

De certo que todos, em todas as profissões, cometem erros, da menor à maior gravidade…

Uma manicure, em um momento de imperícia, pode ferir com um corte o dedo de seu cliente; um cirurgião, em alguns segundos de equívocos, pode matar; um engenheiro civil, errando seus cálculos, pode soterrar inúmeras vítimas, em um prédio seu que desabe…

Da mais singela à pior falha, sempre ocorrem danos, muitos dos quais, reparáveis, enquanto outros são impossíveis de compensar.

Uma pessoa bem intencionada, irá sofrer com sua culpa, buscará as causas do erro, aprenderá com o ocorrido e tomará severas providências para evitar que se repita, transmutando-se em um Profissional melhor ou até mudando de atividade! Ainda assim, irá responder pelos seus atos, é claro, e terá que aprender a conviver com sua falha.

Outrossim, convém pontuar de que as reportagens referidas não são sobre casos decorrentes de erros cometidos por Profissionais de boa fé.

Afinal, se ocorreu não apenas uma, mas diversas e continuadas vezes, com inúmeros clientes, lamentamos, mas se trata de CRIME!

Boa parte das denúncias envolve relacionamentos amorosos/sexuais entre terapeutas e clientes. Nos tribunais, as defesas alegam consentimento entre adultos e paixões recíprocas que desvaneceram com o tempo…

Contudo, este tipo de argumentação não se aplica a situações que envolvam um profissional e seus clientes, pois, há evidente disparidade de “poder” entre as partes e o alegado “apaixonamento” nada mais é do um momento de transferência e contratransferência, fenômeno sobre o qual, todo TERAPEUTA tem a OBRIGAÇÃO de conhecer e estar preparado para bem lidar.

Ainda que ocorra em inúmeros relacionamentos (professores & alunos, médicos & pacientes, líderes & colaboradores, sacerdotes & devotos, mestres & discípulos, etc, etc…), devemos à Psicanálise a teorização desse fenômeno, que a detectou este tipo de dinâmica entre Terapeuta & Cliente.

Transferência é a vivência de fortes sentimentos do Cliente deslocados para o profissional, no relacionamento terapêutico. São elementos reprimidos, muitas vezes, infantis, que ganham nova expressão no espaço emocional, criado pelo encontro “Profissional – Cliente”, sem que este tenha consciência do fenômeno em questão.

Assim sendo, sobre o Terapeuta, o Cliente “projeta” muitas figuras de seu mundo interno (reprimido e inconsciente) e cada vez que se refere a pessoas de seu passado ou do seu presente, pode estar também falando também do Terapeuta, que nesse momento, por diversos motivos, aparentemente se transforma nessa pessoa: ora, aparenta ser ameaçador, ora objeto de amor, tais como pai ou mãe, ou qualquer outro ser significativo da sua vida com as características do que dela foi registrado no inconsciente.

Conjuntamente ou após superadas as resistências iniciais do Cliente (exemplos: será que isto vai me ajudar?; é só falando que vou conseguir resolver meus problemas?; não será que ele ou ela é muito jovem (ou muito velho) para me entender?) aí, sim, começa o processo transferencial e, geralmente, o analisando vê seu analista já como um pai (ora severo, ora indulgente, ora omisso), ou como uma mãe com suas (ora protetora, ora severa, ora negligente…).

O Cliente, ao projetar no Terapeuta tais personagens de sua história, vive esses momentos com intensa realidade, se irrita ou busca mais carinho e proteção.

Numa direção paralela, temos os sentimentos despertados no profissional pelo Cliente, que Freud denominou CONTRATRANSFERÊNCIA.

O Terapeuta é um ser humano, com seus próprios problemas, conflitos e caraterísticas de personalidade.

Cada um de nós tem sua própria história, seus conflitos infantis, e sua conduta (mais ou menos também conflitiva ) e sua forma particular de interpretação.

Ou seja, como todo ser humano, igualmente vulnerável, sensível, vaidoso, ambicioso, invejoso, que ama e odeia, que ainda que capacitado para sua prática terapêutica, também sente, segundo as circunstâncias, carinho, afeto, rejeição, tédio, frente ao que seu Cliente fala, relata, apresenta, projeta nele/nela (transferência), e se irrita, fica entediado, sente empatia e segundo o material da temática tratada, se angustia e sofre.

Isto é a Contratransferência, importante elemento do tratamento, que quando não bem conhecido ou ignorado, pode levar a graves erros terapêuticos. Também quando bem interpretado, pode se tornar um valioso instrumento para compreender melhor o que está acontecendo numa situação ou em um tratamento.

O Profissional, é claro, tem obrigação técnica e ética de estar treinado para tudo isso, porém não poucas vezes tem que pensar e repensar numa interpretação, talvez produto de seus próprios conflitos e personalidade.

Outrossim, nós Terapeutas temos o recurso/obrigação de nos corrigir/vigiar, procurando ajuda dos colegas, supervisão e até uma outra análise a mais.

Grandes gênios da humanidade, como Freud, Jung e Ferenczi, que tanto contribuíram para o entendimento da psique, em seus atendimentos terapêuticos iniciais, sucumbiram aos ódios e amores, envolveram-se passionalmente com seus Clientes, sofreram com isso e causaram sérios prejuízos emocionais a estas pessoas e às de seus círculos.

Pioneiros, desconheciam o fenômeno da transferência / contratransferência e só se deram conta ao sentirem em si e em sua Clientela, as consequências de ignorar.

Se intelectos privilegiados como os acima citados foram surpreendidos, imagine indivíduos comuns, como o somos nós, a grande maioria dos Terapeutas…

A diferença é que, aqueles, por serem pioneiros, atuavam em território desconhecido, enquanto que nós, em pleno século 21, temos total acesso aos ensinamentos oriundos daqueles e de outros mestres, cabendo-nos a obrigação de conhecer, estudar e compreender as bases da Psicoterapia.

Bem sei que os “profissionais” que foram pautas das reportagens são casos extremos, de evidente má fé, pois não se trata de um “erro técnico”, mas, sim, de um “modus operandi”, tamanha quantidade de repetições e de pessoas vitimadas.

Já para todos os Profissionais legítimos, de boa fé, a solução é manter- se continuamente em aperfeiçoamento técnico, com boas leituras, cursos (em especial, de Psicoterapia…) e supervisão: nossos Clientes e nossa Consciência Ética agradecem!

Henrique Vieira Filho - Arte e Terapia

Henrique Vieira Filho -Terapeuta Holístico – CRT 21001, é autor de diversos livros da profissão, ministra aulas na CEATH – Comunidade de Estudos Avançados em Terapia Holística.
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