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O Grego Adonis Virou São João

Neste artigo para o Jornal O SERRANO, Henrique Vieira Filho trata da origem milenar das festas juninas, suas tradições e simpatias, desde a mitologia de Adônis até o ponto em que a igreja romana incorporou todas as suas festividades, transferindo-as para São João.

Adonis e São João - Ilustração Henrique Vieira Filho

As festas de junho são muito antigas: Tamuz na Babilônia, Átis na Frígia, Osíris no Egito… Eram comemorações de verão no hemisfério norte, época das colheitas favorecidas pela temperatura.

Pelos princípios da magia imitativa, acendiam grandes fogueiras para agradar ao sol e os barulhentos festejos eram para chamar a atenção dos deuses no céu e deles obter predições e bênçãos para o futuro.

Tudo isso foi sendo incorporado ao mito de Adônis, o belo mortal nascido de uma árvore de mirra, disputado por Vênus e Perséfone, com quem se dividia: parte do ano sobre a terra e sob o sol, com a deusa do amor, e outro período debaixo do solo, com a senhora do submundo. Ou seja, ela era como as sementes, que germinam no subsolo e emergem para a luz, por isso, tornou-se mais uma divindade da agricultura.

Adônis era amado por Vênus e, enciumado, Marte se disfarça de javali e o mata durante uma caçada. 

Sua trágica história de amor fez dele alvo de orações casamenteiras e de mandingas para prever relacionamentos. Uma das superstições envolvia o milho: plantavam calculando para que as espigas nascessem o mais próximo da data de Adônis (24 de junho): se brotassem em número par, a resposta ao pedido de casamento seria positiva!

 Na Idade Média, a igreja romana, em sua inteligente estratégia publicitária, tratou de “atualizar” todos estes costumes, adaptando–os a um herói de seu agrado: São João! 

Assim, a data foi transformada no dia de seu nascimento; a grande fogueira foi justificada como sendo a forma escolhida por sua mãe, Isabel, para avisar de seu nascimento à comadre Maria; pular o fogo e andar sobre brasas se tornaram “batismos de fogo” e a fama de “casamenteiro” lhe foi atribuída com as histórias de que ajudava as donzelas a inteirar deus dotes, requisito fundamental para poderem casar.

Já as demais simpatias e superstições juninas foram incorporadas extraoficialmente. Por exemplo: enrolar papéis com nomes dos pretendentes, colocar na água na noite de São João e ver qual o destino abre primeiro é um método de adivinhação que vem desde os antigos oráculos de águas sulfurosas do Império Romano!

Fogueiras, cantos, danças, rojões barulhentos não parecem “combinar” muito com a figura austera de João Batista, mas, lembrem que o objetivo inicial era chamar a atenção lá no alto, no Olimpo. 

A tradição adaptou-se para tentarmos acordar o santo, daí a cantiga que, por sinal, incorpora algumas das plantas de Adonis:

“Capelinha de Melão é de São João

É de Cravo, é de Rosa, é de Manjericão

São João está dormindo

Não acorda não !

Acordai, acordai, acordai, João!”

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Henrique Vieira Filho Administrator

Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “Sociedade Das Artes” (SNIIC: SP-21915), diretor de arte, produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTB 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), terapeuta holístico (CRT 21001), professor de artes visuais e sociologia, pós-graduado em psicanálise e em perícia técnica sobre artes.

http://lattes.cnpq.br/2146716426132854

https://orcid.org/0000-0002-6719-2559

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