A Noiva, a Gaiola e o Clique Perfeito

Boris Kossoy, Portrait na Montanha, Serra Negra - SP, 1971, da série viagem pelo fantástico. Fonte: https://boriskossoy.com.br/

No universo da cultura, nada acontece isolado. A festa que une as nações na praça, o Museu ReArte que guarda nossas memórias, o cinema que educa o olhar e a fotografia que imortaliza a alma serrana estão todos unidos por fios invisíveis. 

Caminhar pela nossa recente Festa das Nações é, de certa forma, exercitar a diplomacia pelo paladar. Entre o aroma do Líbano e as cores da Itália, passando pela precisão nipônica e o rigor alemão, Serra Negra desenhou um verdadeiro mapa-múndi em nossas ruas.

E o mapa pode sempre crescer! Quem sabe, nos próximos anos, o continente africano ou as nossas nações indígenas — berços fundamentais de quem somos — também ocupem suas barracas de direito? Afinal, a união dos povos é uma construção constante de inclusão, e esse é justamente o tema da 24ª Semana Nacional de Museus, que o IBRAM/Ministério da Cultura promove e que trouxemos com entusiasmo para a nossa região neste mês de maio.

Essa sincronicidade entre a agitação das ruas e o silêncio reflexivo das galerias é o que define o Museu ReArte. Museus não são depósitos de coisas esquecidas, mas laboratórios vivos de experiências. E, neste mês, nosso laboratório se dedica à luz: é o Mês da Fotografia. Como somos um Ponto MIS (Museu da Imagem e do Som), nossa curadoria mergulhou em filmes de estética apurada (exibições gratuitas às 5as feiras) e exposições que desafiam o simples “clique automático” das redes sociais.

Falar de fotografia no Brasil exige uma reparação histórica. É preciso lembrar que a “paternidade” desse invento também fala o nosso “caipirês”! Hercule Florence, um francês radicado em Campinas, já isolava o processo fotográfico em 1833, anos antes dos europeus que a história oficial insistia em coroar como pioneiros. A reparação só foi feita graças à pesquisa rigorosa de Boris Kossoy, fotógrafo e historiador mundialmente consagrado, que tem uma ligação especial com a nossa região.

Em seu livro Viagem Pelo Fantástico — que temos a honra de expor na ReArte este mês —, há uma obra nascida em nossas serras que é um verdadeiro enigma: Portrait na Montanha, Serra Negra, 1971. A imagem captura uma mulher jovem, de cabelos volumosos e vestido de noiva, sentada solitária diante da vastidão ondulante das nossas montanhas. Ela segura uma gaiola vazia. Seus olhos, com a maquiagem borrada, contrastam com a paz do cenário. É a metáfora perfeita para as prisões invisíveis que todos carregamos!

Hoje, com o celular na mão, todos somos fotógrafos, mas será que estamos enxergando os “avessos” das nossas imagens? Para quem deseja ir além do óbvio e dominar a estética do registro, abrimos as inscrições para a nossa Oficina de Fotografia Para Redes Sociais, ministrada pela talentosa Natália Tonda (gratuito – 22 de maio  – 6a feira – 18h30 – vagas limitadas)Convido vocês a mergulharem nessa programação (acesse www.rearte.com.br ou o QRCode da Ilustração). Vamos celebrar a união das nações, mas também aprender a olhar para as nossas próprias montanhas e descobrir que, por trás de cada pose festiva, existe uma história fantástica esperando para ser revelada.