O Preto Que Virou Ouro

Henrique Vieira Filho e sua pintura “Surreal Coffee”

Já perdi as contas de quantos artigos dediquei à minha paixão mais confessável: o café. Mas, estamos próximos de 24 de maio, Dia Nacional do Café (data que marca o início oficial da colheita), sinto-me na obrigação poética de voltar ao tema, sob o filtro da Arte e da Cultura. 

Afinal, a humanidade sempre precisou de um empurrãozinho cafeinado para mudar o mundo! As cafeterias europeias, por exemplo, foram verdadeiras incubadoras de revoluções; o Café de Flore, em Paris, que o diga, servindo de escritório improvisado para os dilemas existenciais de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir

Por aqui, a partir de 1894, a Confeitaria Colombo assumiu o papel de epicentro político e intelectual da jovem República. Entre um gole e outro, figuras do quilate de Machado de Assis, Chiquinha Gonzaga, Olavo Bilac e Lima Barreto redesenhavam os rumos do país, provando que a nossa literatura sempre teve um aroma forte e encorpado.

Na verdade, se olharmos bem, até a nossa modernidade artística foi financiada pelo grão. A icônica Semana de Arte Moderna de 1922 nem sequer teria saído do papel sem a riqueza gerada pelo “ouro negro”. 

Os rebeldes Oswald e Mário de Andrade tinham suas ousadias estéticas amparadas pelas oligarquias cafeeiras paulistas. Foi o mecenato do barão do café, Paulo Prado, que usou prestígio e recursos para alugar o Teatro Municipal de São Paulo e abrir as portas para a vanguarda. Ou seja, o progresso cultural do Brasil foi empurrado pelo aroma de uma xícara bem quente!

Se os escritores e pintores se renderam à bebida, a música tratou de compor a trilha sonora perfeita. Até Frank Sinatra se curvou à nossa produção, balançando-se com os exageros divertidos de The Coffee Song

Por aqui, o grão virou sinônimo de afeto doméstico. É o romantismo maduro de Roberto Carlos ao propor “servir um café para nós dois”, ou a rotina doce de Chico Buarque que, apesar de sacudido da cama às seis da manhã, ganha o “sorriso pontual” de quem o beija com “boca de café”. 

Mas, foi Jorge Ben Jor quem uniu o chamego à enciclopédia, dando uma verdadeira aula de história ao cantar: “Meu amor, me faz um cafezinho, com aroma e com carinho… Café! O preto que virou ouro! Uma infusão feita com a semente torrada e moída, planta maravilhosa e originária da Etiópia e Abissínia!”.

Nas comemorações do Dia Nacional do Café, enquanto as máquinas e as mãos começam a colheita nas fazendas do nosso Circuito das Águas, o Museu ReArte celebra essa planta mística que une a cafeína à poesia. 

O café é a única obra de arte que consumimos quente, direto na veia, capaz de despertar não apenas o corpo, mas o próprio olhar sobre o mundo. 

Que a nossa safra seja farta, e que nunca nos falte uma boa xícara para inspirar as revoluções do dia a dia!